domingo, 30 de janeiro de 2011

Manchas de vinho

Trabalhar com o público definitivamente é uma caixinha de surpresas. Todos os dias você lida com as mais improváveis situações bizarras e tem que manter a postura e o sorriso estampado na cara. Ossos do ofício para os estagiários do Palacete Provincial. O Palacete Provincial antes funcionava como Comando Geral da Polícia Militar. Já houve muita dor e sofrimento nesse prédio, principalmente na época da ditadura. Durante sua reforma, algumas celas foram preservadas justamente para contar um pouco da história que ali se passou, e essas celas fazem parte do roteiro dos visitantes.
Ontem um senhor muito simpático decidiu fazer uma visita. Entrou na primeira sala e em seguida pediu para ver a celas (curiosidade de muitas pessoas). A caminho da cela, esse senhor me puxou de lado e falou bem baixinho - Eu vou te contar uma coisa, mas não agora -, consenti com a cabeça - Tudo bem! - e continuei o percuso. Algumas coisas se passaram pela minha cabeça, mas como aquilo era tão corriqueiro não dei muita atenção. Chegando no local, expliquei um pouco da história e o senhor ficou uns segundos em silêncio, em seguida falou - Estou todo arrepiado... - É, realmente aquele lugar tem um clima pesado, é frio e tem um cheiro estranho. Voltamos para o hall e fui deixá-lo na entrada. Ele me puxou até as escadas. Suas mãos estavam geladas, ele olhou bem nos meus olhos e sorrindo falou - Minha filha, eu já fiquei preso naquelas celas. Já sofri muito e perdi muitos amigos nesse lugar. Você é muito novinha, tem muito o que viver.  Eu vim aqui só pra isso, até mais! - Eu fiquei em estado de choque. Senti um aperto no peito e fiquei sem reação, sem palavras. Foi uma situação muito constrangedora. Me senti mal.
Isso realmente me tocou, talvez até me identifiquei em alguns aspectos. Tem coisas que realmente ficam marcadas, momentos da vida, pessoas que se foram. São como manchas de vinho, difíceis de serem removidas. Acho que aquele senhor, depois de fazer essa visita, teve uma espécie de libertação. Um sentimento de dever cumprido. E seguiu em frente com o seu sorriso.
Em algum momento da vida nós temos que remover todas as manchas de vinho possíveis. Ter roupas mais limpas e leves.  


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Estive lembrando

Hoje estava eu a voltar de um árduo dia de trabalho escravo, peguei qualquer ônibus que passasse pela Djalma e para minha sorte dentro do ônibus estava um daqueles senhores "pregando a palavra". No meio de versículos, gritos e quase uns safanões (é, nem todo mundo tem obrigação de ouvir sobre Jesus e nem todo mundo tem fones de ouvido e paciência) eu lembrei de um texto que li faz um tempinho (no auge da minha adolescência, nem faz muito tempo, ok?) que me fez refletir. O texto é do Antonio Prata, ele tinha (não sei se ainda tem) uma coluna na revista Capricho chamada "Estive pensando", onde expunha fatos do cotidiano com uma visão bem interessante:


Jesus tomando sol


Você já reparou que somente histórias envolvendo alguma forma de sofrimento nos livram de um compromisso? Se uma pessoa chega atrasada na escola, a um jantar ou ao trabalho, diz que foi o pneu que furou, uma carreta virada na avenida, o velório da tia-avó ou a gripe do periquito que a atrapalhou. Sempre problemas. Imagine só se uma amiga sua chega no meio da aula e explicasse, feliz da vida, para a professora: “No caminho eu encontrei um cara lindo, a gente começou a conversar e, quando eu vi, já tinham se passado quarenta minutos… Posso entrar?”
Não ia dar certo. Já se ela aparecesse dizendo: “Putz, professora, o pneu do ônibus furou, o motorista foi trocar e teve um torcicolo, não conseguia se mexer. Nesse momento os assaltantes chegaram e me fizeram de refém. Minha mãe foi tirar dinheiro pra pagar o resgate e a máquina engoliu o cartão. Tivemos que pedir dinheiro emprestado pra minha avó e por isso cheguei agora”. Aí, sim, ela poderia assistir à aula.
Nessas e noutras situações tenho a impressão de que vemos o sofrimento e a dificuldade como mais nobres do que a felicidade e a facilidade. Já presenciei uma conversa em que as pessoas competiam para ver quem sofria mais. Uma disse que pegava dois ônibus até a faculdade. A outra falou: “Eu tenho que pegar dois ônibus e um trem”. Uma terceira sorriu, porque a parada estava ganha: “E eu tenho que pegar dois ônibus, um trem, ando dois quilômetros e tenho joanetes”. Eu, que moro ao lado, vou a pé e não tenho joanetes, fiquei quieto, envergonhado.
Não é à toa que o sofrimento é tão valorizado em nossa sociedade. Afinal de contas, há dois mil e quatro anos o nosso maior símbolo é um homem pregado na cruz. O filho de Deus, que morreu por nós. Por isso, dizem os católicos, temos que ter uma vida de sofrimento e humildemente aceitar as desgraças. Que horror! Imagine que bom se, em vez do crucifixo, cultuássemos um Jesus tomando banho de rio? Ou jogando bola? As pessoas levariam no pescoço pingentes do filho de Deus se preparando para um mergulho, tomando sol ou dando uma bicicleta! Melhor ainda, se nos altares Jesus estivesse dando um beijo apaixonado em Maria Madalena, sua namorada. Aí, ao passarmos por uma igreja ou um cemitério, não faríamos o sinal da cruz, mas daríamos um beijo. E aprenderíamos, desde criancinhas, que o filho de Deus veio ao mundo beijar o próximo e mostrar que o amor e a felicidade eram mais importantes que a dor, o sofrimento. Se fosse assim, quando a garota atrasada contasse a história do garoto lindo e da conversa, a professora daria um sorriso e a convidaria a entrar, sabendo que aquela aluna já havia aprendido o mais importante sobre a vida.


Legal, né? 
Eu não tô fazendo apologia à nenhuma religião cristã ou algo do tipo (até porque não tenho religião) e acredito que o Antonio também não esteja
. E também respeito qualquer religião e os senhores que "pregam a palavra". Também respeito meus fones de ouvido.



quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mais uma

Mais uma forma de compartilhar o que acontece entre minhas sinapses e a forma como eu divago observo e traduzo a vida, o universo e tudo mais (ok, poderia ter ficado sem essa, culpa do gerador de improbabilidade infinita). Não? Enfim...como esse é o primeiro post vou fazer uma pequena introdução do que vai rolar por aqui. Primeiramente "luacrisando" (Niggwwhat?). Eu criei esse gerundio a partir de "luacris". Os chicólatras de plantão devem saber de onde vem essa expressão, mas pra quem não sabe vem da música "Imagina", do amor da minha vida Chico e do Tom (1983):
"Imagina
Hoje à noite
A lua se apagar
Quem já viu a luacris
Quando a lua começa a murchar
Luacris
É preciso gritar e correr, socorrer o luar..."
Luacris é o cris da lua, o eclipse da lua, quando a lua começa a murchar. Tem mitologia grega e conto popular por trás disso e no vídeo a seguir (nos últimos minutos) o Tom dá uma resumida na história, mas antes fala sobre a bossa nova e bate um papo furado de ótima qualidade com o Chiquito:

No mais, vou ficando por aqui que as sinapses já estão falhando, depois continuo essa conversa fiada.
*caso não tenha entendido a piadinha do gerador de improbabilidade infinita, DON'T PANIC, acesse o link a seguir (recomendo):